40 anos sem carreira
Cheguei aos 40 começando a compreender sobre a importância de várias coisas, entre elas, uma carreira. Dedico este artigo àqueles que, como eu, estão vivenciando um momento de virada em suas vidas. Para o melhor, eu espero.
Vou fazer um resumo da minha vida profissional: formei-me em 1989 em Comunicação Visual e Desenho Industrial pela PUC do Rio de Janeiro. Pra quem não conhece, esta é uma das universidades de ponta do país.
Sabia que era hora de trabalhar; procurei empregos na área da única forma que achava ser possível: classificados de jornal. Pouquíssimas oportunidades surgiam e comecei a ficar desesperançoso. Aí, minha irmã - cuja área é turismo - me apareceu com uma oportunidade para trabalhar como recepcionista de hotel. E lá fui eu. Na minha cabeça trabalhar era importante, mas nem pensava em fazer uma carreira, mais por ignorância do que qualquer outra razão. O tempo foi passando e eu me acomodei. Gostava de trabalhar em recepção de hotel, gostava de praticar as línguas estrangeiras que sei e tudo estava bom. Sem me esforçar muito, rotineiramente olhava os classificados de domingo a procura de uma vaga para programador visual.
Em 1995 adquiri meu primeiro computador, um Mac, o "computador dos designers". Na época eles eram difíceis de comprar por aqui, então a opção foi ficar com um usado. Essa aquisição me dava a sensação de estar mais perto de encontrar um emprego como programador visual. Soa tolo, mas...
Enquanto ia entendendo a máquina, seu funcionamento e aplicativos, continuava trabalhando em turismo, passando de um hotel a outro. Por essa época começou o fenômeno dos BBS's, sistemas de troca de mensagens on line, e fiz novos amigos. Algum tempo depois a internet tornou-se conhecida pelo grande público e rapidamente abri minha conta em um provedor de acesso. Foi uma experiência estranha, pois ainda não compreendia bem a utilidade dessa rede global que estava tomando forma.
Levei algum tempo para perceber que algo não estava indo bem na minha vida profissional. Dentro de mim algo dizia que podia fazer mais do que fincar raízes nas recepções dos hotéis.
Ainda buscando nos classificados dominicais o emprego que desejava, encontrava eventualmente uma oportunidade que não me dava retorno. Acredito que o fato de estar formado há 5 anos e não ter experiência me prejudicou.
Meus estudos prosseguiram e a web ficou mais evidente através dos navegadores. Acho que o primeiro que utilizei foi o Netscape e então percebi a oportunidade que eu procurava para voltar ao mercado na minha área: criar páginas para internet. Estava em pé de igualdade com qualquer outro, pois poucos sabiam mexer com computadores e internet.
Comecei aprendendo HTML e logo surgiram os primeiros editores visuais de código. Programa de edição de imagem, de desenho vetorial e outros. Dediquei-me a aprendê-los o mais rápido possível. Lá por 1997 utilizei uma estratégia simples para divulgar meu nome: enviei um e-mail para vários provedores de acesso a internet da cidade.
Estava trabalhando como agente de atendimento a passageiros no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro nessa época e, coincidência ou não, consegui uma oportunidade em um pequeno provedor cujo dono era ligado a aviação. Foi uma espécie de estágio e fiquei lá por cerca de dois anos. Meses depois ele fechou e alguns clientes de lá entraram em contato comigo para que eu os continuasse atendendo.
Lá pela segunda metade de 1999, após compreender que a vida no turismo não era minha verdadeira praia, lancei mão mais uma vez do e-mail marketing em busca de algo diferente. Exausto do aeroporto pedi as contas e alguns dias depois fui chamado por uma das empresas que havia contactado.
Dia 31 de dezembro de 1999 - uma sexta - deixei o aeroporto para iniciar no dia 3 de janeiro de 2000 em um provedor de acesso como webdesigner. Fiquei lá por 6 meses até que surgiu uma nova oportunidade em uma agência digital de médio porte que atendia a grandes empresas. Nessa hora realmente me senti no mercado. Continuei estudando, pesquisando, mas ainda não havia entrado em contato com a idéia de ter uma carreira. Lia algumas publicações sobre empreendedorismo e não conseguia ver como aplicar aqueles conceitos a minha vida. Deixei-me acomodar.
Saí desta empresa em 2003 após um corte de pessoal e não estava preparado pra isso. Quem está? Bateu uma depressão, fiquei perdido, voltei a ler os números antigos daquela publicação sobre empreendedorismo, até que finalmente entendi: era hora de investir em minha carreira! Mas...O que fazer? Como fazer?...
Houve um elemento pelo qual me deixei atrapalhar mais do que deveria: preciso trabalhar para viver. Por essa razão, tive medo que ao perseguir meus ideais eu passaria necessidades, ou seja, teria que escolher entre ganhar dinheiro ou perseguir meus ideais. Essa escolha não era real. Uma questão organização e tudo estaria resolvido.
Eventualmente surgiram uma oportunidade em outra agência digital e, posteriormente, outra na UERJ, pelas quais me deixei acomodar mais uma vez. Paguei um preço alto por isso, mas talvez se as coisas não tivessem acontecido assim, hoje não teria objetivos mais clarificados na minha mente. Cheguei a 2004 e as sementes de fazer uma carreira começaram a brotar. Nesse momento fiz uma avaliação geral da minha vida, a forma como a estava levando e cheguei a conclusões que me surpreenderam! Vi que era hora de fazer mudanças, procurar novos caminhos e entendi a importância de investir em uma carreira. Aos poucos comecei a montar um quebra-cabeças que nem sabia existir.
Desde que saí da UERJ tenho trabalhado apenas como autônomo. Financeiramente, tenho levado uma vida franciscana, se vocês me entendem, mas tenho feito vários movimentos que poderão me dar um bom retorno no futuro. Estou aprendendo algumas lições importantes. Talvez por ter levado algum tempo para aprendê-las, minha carreira profissional tomou tanto tempo para tomar um rumo. Estou em uma fase de projetar. Sonhos e idéias se misturam. Tenho consciência de que já cheguei a meia-idade, ou seja, não posso perder tempo com escolhas equivocadas.
Sinto-me começando aos 40. Não é uma segunda ou uma nova profissão, um recomeço ou um plano B. É um início, um caminha que já estava a minha frente e sobre o qual ainda não tinha dado os primeiros passos. Minha intuição diz que estou fazendo a coisa certa.
E eu acredito nela.
